O câncer de intestino é um tipo de tumor agressivo e que está em uma crescente de diagnósticos. A expectativa é de que os casos saiam dos atuais 50 mil ao ano para mais de 70 mil em 2040 no Brasil. Em meio a este cenário de perigo crescente, histórias de superação também mostram que é possível combater a doença.
“Aprendi que o diagnóstico não é o fim da linha. Pensei que fosse morrer sem realizar meus sonhos, mas na verdade fui atendida muito mais rápido do que havia imaginado”, diz a produtora rural Carla Brasil Melo, de 46 anos, moradora de Luziânia (GO).
O diagnóstico de câncer de intestino chegou para Carla de forma tardia. Os tumores colorretais não costumam apresentar sintomas antes de chegarem em estágios mais avançados. No caso dela, o primeiro sinal notado foi o de uma cólica abdominal constante, acompanhada de mudanças no hábito intestinal.
“Sempre tive intestino preso e problemas gastrointestinais. Já vinha sendo tratada há tempos contra o refluxo. No entanto, em 2020 passei a sentir cólicas abdominais muito intensas e de forma repentina, que duravam o dia todo, acompanhadas de diarreia”, lembra.
Sinais de alerta do câncer de intestino
- Presença de sangue na evacuação, seja de vermelho vivo ou escuro, misturado às fezes, com ou sem muco.
- Sintomas irritativos, como alteração do hábito intestinal e que provoca diarreia crônica e necessidade urgente de evacuar, com pouco volume fecal.
- Sintomas obstrutivos, como afilamento das fezes, sensação de esvaziamento incompleto, constipação persistente de início recente, cólicas abdominais frequentes associadas a inchaço abdominal.
- Sintomas inespecíficos, como fadiga, perda de peso e anemia crônica.
Em questão de duas semanas, entre o vai e vem dos sintomas, a produtora rural decidiu procurar uma emergência médica. “Lá relatei os meus sintomas e o médico me recomendou uma endoscopia, achando que era consequência da gastrite. Mas eu mesma pedi para ele fazer um exame de sangue oculto nas fezes. Tinha visto na TV que era uma coisa importante para ficar atento se os hábitos intestinais mudassem. Fiz o exame três dias depois e ele constatou que tinha sim, muito sangue oculto nas minhas fezes”, diz.
A presença de sangue oculto nas fezes é o principal indicativo de problemas graves no intestino. Após uma colposcopia para confirmar os resultados, Carla descobriu que estava com câncer de intestino.
O que parecia ser um prognóstico fatal, com um tumor que avançava a cada exame, acabou se revelando um problema contornável com o atendimento rápido que recebeu nos hospitais em que procurou auxílio, o Hospital Regional da Asa Norte (Hran) e o Hospital Universitário de Brasília, da Universidade de Brasília (HUB-UnB).
Foram menos de três meses entre o diagnóstico e o momento em que Carla fez a cirurgia, em janeiro de 2021. Durante o procedimento emergencial, ela removeu 25 cm do intestino, mas teve uma recuperação tranquila e em apenas quatro dias já estava em casa.
“Em três meses, iniciei quimioterapia. Tive sorte pelo atendimento rápido. Na verdade, tudo comigo foi muito rápido e foi o que me salvou. Do diagnóstico até a cirurgia, meu câncer já havia progredido muito, em questão de dias. Foi verdadeiramente uma sorte. Se tivesse demorado um pouco mais, acho que eu não teria sobrevivido”, afirma. O tumor retirado já estava em estágio 3, o penúltimo na lista de risco.
Câncer de intestino aos 46 anos
Também chamado de câncer do intestino, o câncer colorretal (CCR) engloba os tumores que acometem o intestino grosso e o reto, e é o terceiro tipo de câncer mais comum no Brasil. Ocorre, principalmente, em pessoas dos 60 aos 70 anos de idade, acometendo mais homens do que mulheres. Contudo, o número de casos fora da faixa etária média tem aumentado, deixando a comunidade médica em alerta.
O proctologista Bruno Martins, médico do HUB que cuidou de Carla, alerta que é preciso que jovens estejam mais atentos aos riscos do CCR para fazer o tratamento a tempo. O especialista alerta que, caso Carla não tivesse feito o exame que insistiu para fazer, o cenário poderia ser outro.
“Quando o câncer colorretal é diagnosticado de maneira precoce, o tratamento cirúrgico resulta em altas taxas de cura. Entretanto, hoje, infelizmente, uma a cada cinco pessoas diagnosticadas com câncer de intestino tem doença metastática. Isso é reflexo da dificuldade de acesso da população aos exames de prevenção, tais como pesquisa de sangue oculto nas fezes e colonoscopia”, explica o médico.
Martins ressalta que sintomas como sangramento retal, mudanças intestinais persistentes e dor abdominal exigem investigação. “Fatores como obesidade e dieta pobre em fibras elevam o risco”, alerta.
O tratamento no SUS
Entre 2023 e 2024, o HUB realizou 111 cirurgias de CCR e fez uma média de 150 colonoscopias a cada mês. O tratamento feito em hospitais públicos está alinhado a diretrizes internacionais, mas enfrenta entraves.
“Acesso fragmentado e lentidão na incorporação de novas drogas são desafios. O tratamento do câncer colorretal exige a atuação de uma equipe multidisciplinar, composta por cirurgiões colorretais, oncologistas clínicos, radioterapeutas, radiologistas, estomaterapeutas, fisioterapeutas, psicólogos. Por isso, é importante que esse perfil de pacientes tenha acesso a centros de referências”, admite Martins.
Ainda assim, centros de referência como o HUB mostram resultados: Carla está em remissão há três anos.
Vida após o câncer
A produtora rural reassumiu suas atividades com novos hábitos focados na prevenção. “Reduzi o ritmo, priorizo alimentação saudável e exercícios. Mudei meus hábitos de saúde e agora falo para todo mundo: tenha cuidado e atenção com essas mudanças no intestino. Não é uma bobagem”, conta.
Para Martins, histórias como a de Carla evidenciam que o CCR não é sentença. “Com diagnóstico precoce e tratamento adequado, é possível retomar a vida normal”, afirma. A mensagem da paciente ecoa: “Fiquem atentos ao corpo. Não subestimem sinais”.
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