Um novo estudo traz esperança para pacientes com câncer de pulmão ao mostrar aumento do tempo de vida a partir do uso de dois medicamentos combinados.
Segundo os resultados da fase 3 do estudo Mariposa, divulgado no European Lung Cancer Congress 2025 nessa quarta-feira (26/3), a combinação dos medicamentos de terapia-alvo amivantamabe e lazertinibe proporcionou prolongamento significativo da sobrevida global de pessoas diagnosticadas com câncer de pulmão de não pequenas células (CPNPC) – o mais comum – avançado ou metastático com mutação do gene EGFR.
A pesquisa comparou a longevidade de 421 pacientes que utilizaram os dois medicamentos com a sobrevida de um grupo de 428 voluntários tratado com osimertinibe, medicação já comum no tratamento oncológico. O estudo mostrou que 56% dos pacientes estavam vivos após três anos e meio de terapia, enquanto 44% das pessoas que receberam o tratamento tradicional seguiam vivas.
Os dados coletados na pesquisa também indicam redução de 25% do risco de morte dos pacientes que fizeram tratamento com amivantamabe e lazertinibe em relação aos que utilizaram o medicamento padrão.
Sintomas mais comuns de câncer de pulmão
- Tosse persistente.
- Falta de ar.
- Dor no peito.
- Rouquidão.
- Perda de peso sem motivo aparente.
- Cansaço frequente.
- Tossir sangue ou catarro com cor de ferrugem.
A oncologista torácica da Oncoclínicas&Co Tatiane Montella, que acompanhou a apresentação do estudo no congresso europeu, disse que outro indicador positivo é o aumento do tempo livre de progressão da metástase no sistema nervoso central dos pacientes.
“Temos motivos para comemorar. São resultados do ponto de vista científico muito potentes, porque dão o desfecho que a gente mais busca, que é aumentar o tempo de sobrevida do paciente em relação à doença. Mas ainda existem pontos a serem respondidos, por exemplo: qual é exatamente a população de EGFR mutado para a qual deve ser feita essa combinação dos medicamentos?”, ponderou a médica.
O estudo foi feito pela Johnson & Johnson em parceria com centros de pesquisa ao redor do mundo – inclusive o Hospital do Câncer de Barretos, em São Paulo. Dos 1.074 participantes, 69 eram brasileiros. O texto ainda não foi publicado em revista científica.
Os efeitos adversos não são considerados graves: a maioria dos pacientes que testaram a terapia relataram inflamação ao redor das unhas (paroníquia) e manchas vermelhas pelo corpo.
A presidente do Instituto Oncoguia, Luciana Holtz, lembra que os pacientes querem mais tempo de vida e com qualidade. Por isso, o ideal é alcançar um equilíbrio entre o tratamento e o controle dos efeitos adversos.
“O desfecho clínico de mais tempo de vida é o grande ponto do estudo. É claro que, para o paciente que já convive com a doença por mais tempo, o manejo adequado de efeito colateral também conta, porque estamos falando de qualidade de vida. O ideal é ter esse equilíbrio”, afirmou.
Remédios aprovados no Brasil
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, em janeiro de 2025, a combinação dos dois medicamentos para o tratamento de primeira linha de pacientes adultos com câncer de pulmão de não pequenas células avançado ou metastático com mutações de deleção no éxon 19 ou de substituição L858R no éxon 21 do receptor do fator de crescimento epidérmico (EGFR).
A notícia foi comemorada pela comunidade científica, mas o amplo acesso aos produtos ainda é incerto no Brasil por dois motivos: os remédios são de alto custo e dependem de questões burocráticas para começarem a ser vendidos na rede particular e ofertados na rede pública.
O amivantamabe já está disponível no mercado. Mas a combinação com o lazetinibe depende, ainda, da precificação pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), do Ministério da Saúde. Só depois é que o novo tratamento pode ser prescrito por médicos oncologistas no Brasil e adquirido pelo paciente.

Controle dos efeitos adversos
A Johnson & Johnson, empresa responsável pela combinação de amivantamabe com o lazertinibe, está conduzindo um estudo para reduzir os efeitos adversos na pele. A fase 2 do Cocoon, também apresentado no European Lung Cancer Congress 2025, indicou diminuição em 50% das reações dermatológicas com uso de antibiótico oral, aplicação de antibótico tópico para o couro cabeludo, uso de sabonete antisséptico e de hidratante.
Após a apresentação dos resultados da fase 3 do estudo Mariposa, o diretor médico do grupo Oncoclinicas em Brasília, Igor Morbeck, explicou que a aplicação do amivantamab e as reações à infusão, como febre e náuseas, ainda são consideradas por médicos e pacientes na hora da definição do tratamento.
“O amivantamabe ainda é um remédio difícil de aplicar, que requer uma atenção muito grande, algumas vezes até a internação do paciente para as primeiras infusões, porque há um risco que não é desprezível de reações infusionais. No futuro próximo, essa medicação virá com apresentação diferente, subcutânea, o que indica que terá toxicidade menor do que a injeção com o soro”, afirmou Morbeck.
Segundo a diretora médica da Oncologia da Johnson & Johnson Innovative Medicine no Brasil, Deise Almeida, a farmacêutica fez testes com uso subcutâneo do amivantamabe que indicam diminuição da reação infusional que o paciente sente, incluindo febre e tremores. “O estudo está com a Anvisa. A gente espera que seja aprovado ainda em 2025”, declarou.
Revolução no tratamento de câncer de pulmão e desafios
Os especialistas ouvidos pelo Metrópoles explicaram que houve uma revolução no tratamento de pacientes com câncer de pulmão na última década, a partir da realização de testes moleculares que identificam o tipo da doença e permitem a terapia-alvo, mais específica e eficaz.
“A maior mudança que aconteceu nesse cenário foi o melhor entendimento relacionado à doença. A gente hoje enxerga o câncer de pulmão como um conjunto de doenças. Isso veio muito a partir do que chamamos de diagnóstico molecular. Descobrimos vários nichos de doenças e, a partir deles, começamos a personalizar o tratamento”, explicou a oncologista Tatiane, da Oncoclínicas&Co.
Antigamente, a expectativa era de que o cidadão diagnosticado com a doença viveria uma média de seis meses. “Temos visto uma revolução no tratamento. Em 2012, aproximadamente, a maioria dos pacientes com câncer metastático morriam dentro de um ano”, comentou a médica oncologista torácica Tércia Reis, da Oncologia D’Or.
Um dos exemplos do aprimoramento da terapia-alvo em tratamento do câncer de pulmão é, justamente, a fase 3 do estudo Mariposa. Os cientistas responsáveis pela pesquisa projetam que, a partir dos resultados obtidos até agora, a vida do paciente oncológico pode chegar a quatro anos com qualidade.
Siga a editoria de Saúde e Ciência no Instagram e no Canal do Whatsapp e fique por dentro de tudo sobre o assunto!